Na Serra de Baturité, o café não é apenas um produto, mas parte constitutiva da cultura alimentar do território. Cultivado à sombra das árvores, em diálogo com a floresta e com os modos de vida locais, o café atravessa gerações e sustenta histórias de famílias que aprenderam a ler o tempo da terra, das chuvas e das colheitas. Mais do que uma atividade econômica, a cafeicultura se inscreve como prática social, reunindo saberes, técnicas e relações que conectam memória, identidade e pertencimento.
A pesquisa desenvolvida no Laboratório de Criação em Cultura Alimentar e Gastronomia parte desse entendimento para articular saber tradicional e inovação. Ao longo do processo, foram realizadas ações formativas com produtores, visitas técnicas, degustações e momentos de troca, além de análises genotípicas e fenotípicas do café da Serra de Baturité. Essas iniciativas contribuíram para qualificar a produção, fortalecer o associativismo e construir, de forma coletiva, estratégias de valorização do café de sombra como expressão singular da região.
Como desdobramento, a pesquisa propõe caminhos para o posicionamento do café da Serra de Baturité no mercado de cafés especiais, sem dissociá-lo de sua dimensão cultural. O desenvolvimento de um drip coffee coletivo, o aprimoramento de canais de comunicação para a Ecoar Café e a análise com certificação de lotes são parte de um movimento maior, que busca traduzir em linguagem contemporânea a riqueza de um saber que é, ao mesmo tempo, técnico e ancestral. Assim, o café segue ecoando como prática, memória e futuro.