A pesquisa desenvolvida no Laboratório de Criação em Cultura Alimentar e Gastronomia parte desse entendimento para articular saber tradicional e inovação. Ao longo do processo, foram realizadas ações formativas com produtores, visitas técnicas, degustações e momentos de troca, além de análises genotípicas e fenotípicas do café da Serra de Baturité. Essas iniciativas contribuíram para qualificar a produção, fortalecer o associativismo e construir, de forma coletiva, estratégias de valorização do café de sombra como expressão singular da região.
Como desdobramento, a pesquisa propõe caminhos para o posicionamento do café da Serra de Baturité no mercado de cafés especiais, sem dissociá-lo de sua dimensão cultural. O desenvolvimento de um drip coffee coletivo, o aprimoramento de canais de comunicação para a Ecoar Café e a análise com certificação de lotes são parte de um movimento maior, que busca traduzir em linguagem contemporânea a riqueza de um saber que é, ao mesmo tempo, técnico e ancestral. Assim, o café segue ecoando como prática, memória e futuro.
A pesquisa desenvolvida no âmbito do 8º Laboratório de Criação em Cultura Alimentar e Gastronomia acompanha a trajetória de Edneuly Lourenço, agricultora e queijeira do Sertão Central do Ceará, no município de Quixadá. Em um território marcado pelos monólitos e pela vida no semiárido, sua produção de leite de cabra emerge como prática cotidiana e como construção de conhecimento. Ao partir de um rebanho que começou com duas cabras e hoje ultrapassa setenta animais, a pesquisa não se limita ao desenvolvimento de produtos, mas se inscreve no fortalecimento de uma mulher rural que transforma experiência em saber e trabalho em permanência no campo.
O processo investigativo articula qualificação técnica e valorização da cultura alimentar, promovendo o aperfeiçoamento da linha de produção do Capril Lourenço. A incorporação de formação técnica e de instrumentos de controle, como pHmetro e medidor de acidez Dornic, contribui para o monitoramento da qualidade do leite e dos derivados, ampliando a segurança sanitária e a precisão dos processos. Nesse percurso, foram aprimorados produtos como o queijo tipo boursin e o iogurte de leite de cabra, além da criação de um queijo maturado de longa cura, o “Ouro do Sertão”. Desenvolvido ao longo de 120 dias, o queijo traduz a relação entre tempo, técnica e território, dialogando com a identidade local, inclusive na escolha dos nomes inspirados nas pedras de Quixadá.
Para além da produção, a pesquisa assume um compromisso formativo e coletivo, por meio da realização de uma formação de dois dias voltada a produtores de leite de cabra do Ceará, ampliando o acesso a conhecimentos técnicos e fortalecendo redes locais. Desenvolvida com a mentoria de Heloísa Collins e Andrea Rosenfeld, e com parcerias do Projeto São José/Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA) e do NUTEC, responsável pelas análises laboratoriais, a iniciativa evidencia o papel das políticas públicas e das instituições na sustentação da agricultura familiar. Ao final, mais do que um queijo, o que se constrói é uma narrativa de transformação, em que o sertão deixa de ser visto como limite e se afirma como potência — um lugar onde o queijo também é linguagem, identidade e futuro.